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Nestes tempos de pandemia, é comum a afirmação de que a única coisa que permanece firme e é útil de fato é a ciência. Pretendo desenvolver, aqui, um pensamento que ajude a colocar no devido lugar essa compreensão e nos impeça de depreciar outros dados da experiência e da cultura humana. Alguém pode argumentar que um sopro não tira um carro atolado na lama. E é verdade. Mas também não pode negar que respirar bem é algo essencial para quem pretenda tirar, no ‘muque’, um carro atolado na lama.

Somos filhos da razão da sensibilidade científica. Vemos e sentimos o que a ciência nos permite ver e sentir. Como se ela esgotasse a realidade. Estou falando da ciência enquanto publicidade. Os cientistas mesmos, que se debruçam sobre o microscópio, não pensam assim. São bem humildes. Dizem sem rompantes: Nosso saber é limitado: Vai dos nossos pressupostos até o ponto que chegaram nossas pesquisas. O antes e o depois, não sabemos. Ou seja, sabem que o real é maior do que aquilo que manuseiam. E uma descoberta nova obriga a revisar tudo o que foi descoberto até então. Portanto, a ciência não é nada firme, garantida, decidida. Pelo contrário, é bem balouçante e claudicante.

Por outro lado, no nosso tempo, tende-se a pensar a espiritualidade como uma vivência subjetiva, de cunho devocional intimista, algo que nada tange de real e universal no ser humano. Verdade verdadeira é só o que a ciência comprova no microscópio. O mais, é tido como verdade de segunda classe. Mas, e se a espiritualidade for outra coisa, diferente da ciência tal qual a temos, e também diferente da vivência subjetiva pio-místico-devocional?

Que tal se espiritualidade for, sim, uma ciência, uma possibilidade de conhecimento do real, muito mais profunda, a que não chegamos por estarmos enredados nas malhas da sensibilidade e da razão científica? E se a ciência for uma abertura muito estreita, projetada, que não deixa aparecer o real na sua inteireza?

Ouvi há algum tempo que uma revista católica do Japão publicou uma entrevista com um pesquisador de pedras especiais, na qual ele afirma que cristais, por exemplo, não são aquilo que estamos pensando: algo rígido e sem nenhuma vitalidade. E que quem o focar melhor pode ver no cristal uma manifestação que bem merece o nome de vida, etc. Interessante a Bíblia dizer que foi atravessado a pé enxuto o mar, na fuga do Egito, o povo viu as montanhas pularem como cordeirinhos (Sl 113,4).

Pela estatística, a espiritualidade tem mais ‘Ibope’ que a ciência. Historicamente, são em maior número os que confiaram na espiritualidade do que os que confiaram na ciência. A ciência tem menos história, menos investimento de energias humanas do que a espiritualidade.

O que os cristãos querem dizer com a palavra espiritualidade? Talvez a melhor maneira de recuperar a compreensão mais próxima de espiritual, seja traduzi-lo por um termo moderno: existencial. Só que, de novo, disparamos um preconceito, se entendermos o existencial como vivencial, emocional ou, pior ainda, existencialista. Existencial significa o que tem a ver com a existência humana. Nada a ver com ocorrência. O humano jamais é um fato ao lado de outros fatos, como pedra, animal, planta, etc… Significa unicamente que o ser humano é mais do que ocorrência. Significa que é esse ‘mais’ que constitui a essência do ser humano.

Em que consiste esse mais? Esse mais o Ocidente chamou de ‘liberdade’ (o Medieval usa para esse ‘mais’ termos diferenciados, como: vontade, alma, mente, razão e, principalmente, espírito).

Só que liberdade aqui não pode ser entendida como o estado de uma ‘coisa livre de’, por exemplo, dificuldades, imposições. Com outras palavras, não p o d e m o s e n t e n d e r a q u i a l i b e r d a d e  como espontaneidade vital-orgânico-vegeto-animal.

O que é a liberdade enquanto expressão desse ‘mais’ que é o núcleo do ser humano? É o poder e a tarefa que o ser humano tem de dar sentido a todas as coisas, inclusive a si mesmo. Posicionar-se diante do abismo da doação do ser, da imensidão da vida, assumir com responsabilidade o sentido dela ali revelado nesse posicionamento e lutar para concriar um universo cada vez melhor. Inclusive no tempo do COVID-19. Esse modo de ser é a existência: espírito, espiritual. Daí vem espiritualidade.

 

DOM FREI JOÃO MAMEDE FILHO OFM Conv

Bispo Diocesano de Umuarama

Fonte: Informativo Diocesano – Ano 45 – Número 467 – Julho de 2020.

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