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Dado frenesi consumista da nossa época, caímos muito facilmente em um equívoco quanto à vida cristã. Consumismo aqui, não é, imediatamente, o fato de sermos induzidos a comprar mais do que precisamos. É uma filosofia. É o entendimento de si mesmo como já finalizado e consumado. Como se a gente não tivesse mais novidade ou surpresa a experimentar: já senti e experimentei toda a novidade possível para um ser humano. Agora, o único diferencial possível é: trocar de roupa, de carro, de casa, de utensílios… e – por que não? -, de amigo, de namorada, de esposo, de Igreja, etc. Só me é possível doravante mesmices!! Eis a cabeça, o entendimento que gera o frenesi consumista da nossa época.

Embalados nessa, visualizamos a vida cristã ou como rearranjo do tabuleiro comunitário, que é a família e a comunidade, pura troca de posições que não mexe com ser, o interior e o íntimo de ninguém, ou como infusão repentina de todas as luzes do cristianismo.

Talvez outro exemplo clareie mais: Digamos que decidimos nos preparar para competir na corrida dos dez mil metros das próximas olimpíadas. E vamos começar o treino: Um, dois, três… já! E todo mundo dispara a mil por hora. Isso não funciona. Já depois de quinhentos metros todos vão cair desmaiados!!! Essa é que é a verdade. Quem quiser seriamente competir, começa a seguir um treinador, alterando costumes de sono e de alimentação. Começa a se submeter a caminhadas lentas e a exercícios físicos apropriados. E, depois de longo tempo de preparação, finalmente, começa a treinar na pista de corrida. Não partindo a mil por hora, mas em um ritmo cuidadoso, que vai acelerando aos poucos. Ou seja: há que haver uma iniciação. O empenho em uma experiência.

Enumeremos algumas dificuldades da experiência:

– a maneira de progressão em um caminhar lento, tateante, no lusco-fusco de um saber na semiescuridão, que exige muita energia, paciência e atenção;

– a maneira de abordagem e de encaminhamento muito cuidadosa, titubeante, por um lado, sem determinação prefixada, mas, por outro, muito diferenciada, que não permite simplificar a realidade em preto e branco, em sim e não, em certo e errado;

 – o tempo da experiência que sabe esperar, se for necessário, toda uma vida, na tenacidade da busca, tempo lento, sem precipitação, no recolhimento; – a exigência de uma ascese que não pensa no gozo, na vivência, no satisfazer-se, mas que se dispõe a deixar-se conduzir pelo crescimento do sentido que vai aparecendo no decurso de uma longa caminhada;

– a exigência de uma atitude responsável consigo mesmo, livre de todo e qualquer paternalismo e ensimesmamento nos interesses do seu pequeno eu;

– a exigência de uma coragem que está disposta a se deixar questionar pela vida, quiçá até a perdê-la, na espera de uma nova vida a cada instante. A maneira de ser da experiência pede uma atitude que é diametralmente oposta à tendência da nossa modernidade, aos valores de projeção e realização do ideal que domina o nosso mundo.

Por isso, o modo de ser da experiência passa a impressão de ser alienado, nada prático, inútil, antissocial, particularizado, privativo. No entanto, todas essas interpretações negativas camuflam a ausência de um vigor mais radical que não consegue suportar o questionamento básico da identidade última de nós mesmos, lá de onde brota no trabalho lento, tenaz, paciente e abnegado a força da vida que não é nenhuma moda da época, mas o originário da vida. Da vida que sobrevive a todos os slogans e modas da nossa modernidade.

Esse vigor radical, no entanto, não é brilhante. Nada muda de imediato, não funciona como nós queremos, nada podemos fazer com ele, é muito pouco para as nossas necessidades.

No entanto, se formos um dia tocados por seu sopro, pode ser que ele faça alguma coisa conosco, de tal sorte que sejamos, aos poucos, transformados no nosso registro central, no sentido do ser que anima o nosso viver. O problema fundamental da nossa vida cristã hoje consiste não nisto ou naquilo, mas sim, na incapacidade de acolher e compreender que apenas esse pouco é o único necessário, o fundamental da nossa vida.

DOM FREI JOÃO MAMEDE FILHO, OFM Conv
Bispo Diocesano de Umuarama    

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