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Magistério do papa Francisco: Evangelii Gaudium

Lição 1

Alegria do Evangelho e evangelho da alegria.

O papa Francisco começou seu pontificado em março de 2013. Ele herdou do papa emérito, Bento XVI, a encíclica que Bento estava preparando, sobre a Fé: Lumen Fidei, que ele mesmo terminou e publicou em junho daquele mesmo ano. Porém no ano anterior, em outubro de 2012, tinha acontecido o Sínodo dos bispos com o foco na “Nova evangelização para a transmissão da fé cristã”. Como é costume, o papa recolhe as reflexões, os debates e os resultados, e elabora uma Exortação Apostólica Pós-sinodal. Sobre e evangelização ficou célebre a Exortação Evangelii Nuntiandi (Sobre o dever de anunciar o evangelho) de Paulo VI, em 1975. O papa Francisco recebeu a incumbência, portanto, do sínodo que o antecedeu no pontificado e em novembro de 2013 ele publicava Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho).

A importância fundamental desta Exortação é que o papa Francisco viu nela a ocasião para apresentar o programa de seu pontificado. Portanto ela é mais do que uma exortação pós-sinodal. O que está nela acompanha todo o pontificado do papa Francisco. E mais: ele pede a toda a Igreja, a todos os católicos, que se insiram neste programa para sermos uma Igreja unida em torno da evangelização: “Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de convidá-los para uma nova etapa evangelizadora marcada por essa alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos”(EG 1).

A exortação está dividida em cinco capítulos. Na introdução, antes mesmo da parte em que apresenta motivações, contexto e intenções do texto, apresenta o fundamento da alegria cristã: a fé em Jesus, a sua presença viva que mantém e comunica alegria inclusive nos momentos de sofrimento, porque é alegria mais forte e inabalável do que os sentimentos: é alegria em Deus. Dela deriva a alegria de ser cristão e de ser evangelizador e evangelizadora.

O primeiro capítulo tem como título “transformação missionária da Igreja”. Lembra muito o nosso texto latino-americano resultante da Conferência dos bispos de Aparecida, de 2007, sobre a conversão pastoral e missionária da Igreja. Insiste em uma Igreja “em saída”, o que ele diria mais tarde de forma espontânea, que prefere ser uma Igreja “machucada” por ter andado por caminhos difíceis do que uma Igreja “mofada” por se conservar fechada.

O segundo capítulo olha com honestidade e coragem para os problemas do mundo e da Igreja de hoje, que desafiam a evangelização. Leva por título, de forma já sintomática: “Na crise do compromisso comunitário”. O papa coloca assim imediatamente o dedo na ferida que mais desafia ser cristão. De fato, a vida em comunidade, no mundo em que vivemos, está passando por uma transformação e uma crise muito grande. Ela vem da área da economia, do mercado, do individualismo, da exclusão, do crescimento de desigualdades. Mas há desafios também da riqueza da diversidade cultural, da necessidade de traduzir o evangelho em culturas urbanas. A Igreja pode se sentir em perigo e se fechar, tornar-se pessimista. Ao invés disso, o papa recorda que Jesus pode e deve nos unir na coragem e na autenticidade do testemunho do evangelho.

No terceiro capítulo, sob o título “O anúncio do evangelho”, o papa abre as portas dos recursos da evangelização. Primeiro, o próprio povo cristão, o seu testemunho, os seus carismas diversos. Depois, a palavra evangelizadora, que precisa de uma boa preparação, de catequese, de experiência.

No quarto capítulo, o papa retoma uma tradição típica da fé cristã: as consequências de amor ao próximo que decorre naturalmente da evangelização e se torna ele, mesmo, o amor e a solidariedade, uma forma social de evangelização. Daí o título: “A dimensão social da evangelização”.  Cuidar da fragilidade e dos pobres em primeiro lugar, provocar processos pacientes e longos, dialogar em vista da justiça e da paz, tudo isso é detalhado com cuidado.

Finalmente, no capítulo cinco, ele volta para a energia que precisamos a fim de cumprirmos esta missão, o Espírito, a intercessão de Maria e dos santos, o fato de que não estamos sozinhos: “Evangelizadores com Espírito”. Por isso, também, com espiritualidade, com a certeza da eficácia que vem da graça para quem se doa com sinceridade.

A “Alegria do Evangelho” consiste basicamente no anuncio de uma “alegre notícia”, a de que somos uma família humana, habitamos uma casa comum, podemos nos dar as mãos, superar os conflitos e viver em paz e fraternidade. Isso é inaugurado por Jesus e sustentado por seu Espírito. Não é alegria artificial ou passageira, não é emoção psíquica, mas é a profundidade da fé e da graça de Deus, é de fundo teológico, é por isso insuperável, porque vem de Deus mesmo que habita em nós. Por isso a alegria do evangelho é poder levar adiante a notícia da alegria, como diz a palavra grega original: “ev-anghelion”, ou seja, boa notícia! Com esse espírito vamos percorrer e comentar as páginas da Exortação pós-sinodal “Evangelii Gaudium”.

Questão: Qual é a substância e o fundamento da alegria cristã? Porque o papa insiste na postura da “alegria” para a evangelização?

 

 

 

 

 

 

Magistério do papa Francisco: Evangelii Gaudium

Lição 2

Reforma da Igreja em “saída” e “em conversão”

 

O primeiro capítulo de nosso texto é uma inauguração ao modo do documento de Aparecida, do qual o papa foi presidente de comissão de redação: o encontro com Cristo, o Jesus de Nazaré e seu evangelho, é a experiência espiritual e a alegria que se tornam fonte inesgotável de vida e de dom aos outros. A evangelização tem raízes nessa experiência ou seria uma triste mentira. Isso está decidido! Agora o passo seguinte: toda a relação com Jesus, como nos grandes momentos e figuras da Bíblia, é uma relação “em caminho”, é ir a ele e depois com ele andar. É seguir como discípulo, formar com Jesus uma “comunidade itinerante”, e ser enviado como evangelizador, carregando uma missão – ser missionário. O papa Francisco, nas atuais circunstâncias, insiste no movimento de “sair”. Ele insistiu mais de uma vez que prefere uma Igreja machucada por andar pelos caminhos rudes do mundo do que uma Igreja mofada e doente por se fechar sobre si mesma.

Sair

Um padre saiu e levou o confessionário consigo, colocando-o…na praia. É bem verdade que a confissão é um momento privilegiado de acolhimento, de escuta, de sinal da misericórdia, tudo o que o papa tem acentuado. É um momento precioso da graça. Mas sair com o velho confessionário? O que é “sair”, hoje, para o papa Francisco?

Sair é primeirear (neologismo argentino), ou seja: ir, “como primeiro”, tomar iniciativa. Não ficar esperando – para ver o que acontece. É inventar e se mover, envolver-se e envolver os demais, ir à frente sem temor, unir-se a quem vai à frente, encurtar distâncias, estar pronto e com humor para uma boa conversa em torno do evangelho. Não ter receio de ser contagiado, mas, pelo contrário, contagiar. Saber reconhecer a bondade que há nos outros, abençoar e festejar, acolher os sofrimentos e as misérias, tocar e abraçar os feridos. Inventar modos de semear, de transformar o “cheiro de ovelhas” em “perfume do encontro”.

Não é mais tempo de simplesmente administrar, ritualizar, presidir reuniões, mas de buscar contatos, andar por caminhos novos, assumir-se como enviado de Jesus.

                Conversão

                Quando o papa fala em “conversão”, não está pensando em conversão do indivíduo a Deus, o que é essencial. No contexto da Igreja, não está pensando em conversão do mundo á Igreja Católica, o que foi muito tradicional. Ele pensa uma pastoral em conversão e uma “conversão pastoral”, como já se insistiu em Aparecida: é, de certo modo, a Igreja que é chamad por ele a se converter ao mundo, não no sentido de se tornar mundana, mas de sair de si, de seus espaços próprios e habituais, e ir ao mundo novo, aos espaços novos para encontrar as pessoas lá onde elas estão.

De um modo muito especial o papa insiste em ir “às periferias”: periferias sociais e periferias existenciais. Lá onde está o povo, sobretudo o povo simples, o povo que só tem ônibus para andar. Mas também o povo que sofre, que está se sentindo abandonado, etc. todas as periferias da existência humana são lugares prioritários de evangelização.

Isso não significa que a célula básica da presença institucional da Igreja, a paróquia, seja “estrutura caduca: possui uma grande plasticidade, pode assumir formas diferentes que requerem a docilidade e a criatividade missionária do pastor e da comunidade” (EG 28). Ela precisa ser uma irradiação que chegue às pessoas, às famílias, à vida do povo como esta vida acontece ao seu redor. Justamente porque a cidade, quanto maior, mais parece diluir e flutuar em suas relações, a tentação da paróquia é ir formando uma “panelinha” protegida. Ao contrário, uma plataforma aberta que não só flutue firme mas acolhe e se torne farol para quem anda cansado e aflito em suas andanças.  Mas o papa acaba lembrando que ela deve ser completada por outras formas de comunidades, pequenas, de pertença, e no abraço maior á cidade, à diocese. Ele considera que o próprio papado, a sede vaticana, precisa de conversão (cf. EG 32).

A “conversão pastoral” parte do encontro do grito e da necessidade com a palavra do evangelho. Não se trata de ter um pacote de doutrinas e normas, clareza do que se pode e do que não se pode, etc. Ele lembra o concílio que apontou para uma hierarquia na importância das verdades, e que Santo tomas também falou de uma hierarquia na importância das virtudes morais. Quem quer tudo de repente também não consegue nada, quem exige tudo é mandado pra casa. Em primeiro lugar há o anúncio do amor misericordioso de Deus, a proposta de algo essencialmente bom. Há, depois, o trabalho do discernimento, de examinar e decidir quais os passos possíveis, o que se pode fazer juntos, etc. Para o papa Francisco está claro: o discernimento com a liberdade de Filhos e Filhas de Deus, com o evangelho e a assistência do Espírito Santo, está acima das leis. Somos limitados, frágeis, mas quem enviou vai junto com o enviado.

Questão: Quais as periferias sociais e existenciais estão reclamando “saída” e “conversão” em seu ambiente (cidade, área da cidade)?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Magistério do papa Francisco: Evangelii Gaudium

Lição 3.

Crise e desafios de nosso mundo

Poderia causar surpresa o título do segundo capítulo de nosso documento, se não fosse o fato de que o papa está realmente colocando o dedo diretamente no centro da ferida: “Na crise do compromisso comunitário”. O ponto de dor é este: estamos num mundo em que os laços de pertença e de comunidade se desfazem espantosamente pela força do individualismo, da economia e do dinheiro. Este é o maior desafio para uma Igreja que, afinal, é essencialmente “comunidade” de Jesus, comunidade de escuta da Palavra de Deus, comunidade de testemunho e de salvação. O que está acontecendo?

Nesse capítulo o papa faz um diagnóstico curto e direto, com um olho de pastor, não propriamente como um especialista nos diversos pontos que aborda. Sua especialidade é “pastoral”, é o cuidado da fé, da esperança e da caridade no povo de Deus. Mas é claro que se vale de especialistas, subentendidos em seu diagnóstico. Pode-se dividir o capítulo em duas partes: os problemas que enfrenta o mundo contemporâneo e os problemas internos da Igreja. Nesta lição vamos nos ocupar com a primeira parte, os problemas postos pelo mundo de hoje. Estes também são divididos pelo papa em dois níveis: a) o nível econômico e político; b) o nível cultural e espiritual.

“Money!”: o dinheiro está no olho do furacão que está levando de roldão a mundo globalizado pela escalada do mercado que tudo compra e vende – as matas, as águas, as almas e a religião – e pela “financeirização” da economia. O papa Francisco não tem luvas de pelica nesse ponto diante do movimento da economia observado por todos os papas desde João XXIII, há mais de cinquenta anos, e que só fez aumentar: economia de arrastão, que, além de um extrativismo cada vez mais intenso, se torna concentrada e excludente. O dinheiro se deslocou de sua função de valor de circulação de bens para o de entesouramento de forma cada vez mais desiquilibrada. A atual fase do capitalismo financeiro, em que papéis, dígitos, transferências online, etc., tornam o sistema de comando quase invisível, é uma fase perigosa de perdas e danos rápidos e profundos em economias regionais. E o dinheiro parece ganhar as almas: o papa o chama de “bezerro de ouro”, o ídolo por excelência de nosso tempo, ao qual tudo se curva, se sacrifica, se violenta, se corrompe. O dinheiro, com a obsessão por sua garantia e medo de sua falta, dobra os governos e se torna o verdadeiro governo, tirano e frio, deus sem coração. A economia – o mercado – manda na política de forma ditatorial.

Depois da queda do mundo comunista e do descrédito de todo tipo de ideologia socialista, sobrou um mundo de mercado global, de capitalismo crescente, de governos a serviço do capital e do seu crescimento, e um dos efeitos, que preocupam um pastor como o papa Francisco, é a crescente desigualdade e abismo social seja entre elites endinheiradas e populações cada vez mais fragilizadas economicamente e submetidas à exploração de todo tipo, seja entre países e continentes. Esperávamos superar esses problemas históricos, e, ao invés disso, estamos piorando as desigualdades que se tornam cada vez mais cínicas por seu caráter de injustiça e desumanidade, de crescimento de insatisfação e violência. O desafio de enfrentar e tentar mudar este imenso sistema construído com séculos de percurso e agora, com a tecnologia, se agigantou de forma predatória, ecologicamente trágico, socialmente inviável – este é um enorme desafio contemporâneo, contexto no qual estamos como Igreja.

Outro desafio, junto com o econômico e político, é o desafio cultural, sublinha o papa a partir do n. 61 da EG.  Algumas regiões do mundo reduziram a cultura ao bem-estar, ao gozo estético, à busca individual da felicidade e da realização de curto prazo, num vazio espiritual que torna incapaz de compromissos onde se necessita também de energia e generosidade. Outras regiões se sentem ameaçadas em sua cultura, seu modo de vida e em seu coração, a religião. Tornam-se agressivas, intolerantes, fundamentalistas. No meio disso, a Igreja precisa ser “católica”, ou seja, coração aberto e acolhedor, espaço de reconhecimento e acolhimento da diversidade cultural, do discernimento a respeito dos modos de vida de povos tão diferentes. O papa pede que os católicos se examinem a respeito da solidez e profundidade da própria fé, buscando melhor formação para poder se mover e dialogar. De modo especial, a forma urbana do mundo contemporâneo, com seu pluralismo complexo, exige critérios para se mover com liberdade e com responsabilidade em meio a tanta criatividade, tanto brilho e miséria ao mesmo tempo.

“Inculturação” é a palavra retomada pelo papa indicando o trabalho de evangelização da diversidade cultural e da sua exuberância urbana: aprender a linguagem contemporânea para falar do evangelho e da fé, para expressar segundo a sensibilidade e as buscas espirituais de nosso tempo, em diálogo incansável com homens e mulheres que nos rodeiam.

Questão: Segundo suas palavras, qual mesmo a razão de o papa Francisco ir curto e direto ao ponto em que ele chama o dinheiro de “bezerro de ouro”, idolatria de nosso tempo? O que isso implica no conjunto de nosso mundo, de nossa economia e política, de nossa cultura e nosso modo de vida?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Magistério do papa Francisco: Evangelii Gaudium

Lição 4

Tentações e desafios em nossa Igreja

 

Depois de Francisco examinar o foco dos problemas de nosso mundo – a economia de mercado e o dinheiro que aprisionam a política e transformam a cultura e até a religião em consumismo – ele nos convida a olharmos para dentro da Igreja e examinarmos o quanto somos não só afetados de fora mas também desafiados a uma nova conversão em nosso interior. O papa tem consciência da generosidade missionária de agentes de pastoral que dão sua vida mundo afora, mas quer ajudar toda a Igreja a dar mais passos neste caminho.

Em primeiro lugar, analisa a acomodação à cultura do individualismo, acompanhada de uma “crise de identidade e um declínio do fervor” (EG 78). O relativismo cultural e religioso, sob o fenômeno do pluralismo atual, que se difunde na mídia, intimida e acaba por instalar uma crise de fé, mesmo que se continue burocraticamente cumprindo tarefas. E entram as compensações individualistas, acompanhadas de momentos de desânimo e até de perda de generosidade e entusiasmo na gratuidade pastoral, nos diferentes serviços que a Igreja necessita para evangelizar. Com suas já famosas metáforas, ele aponta para  o risco de “psicologia do túmulo” e da transformação de cristãos em “múmias de museu”(cf. EG 83). Finalmente, há o risco de baixar uma cortina de pessimismo que, na célebre intervenção de João XXIII, ao abrir o Concílio Vaticano II, ele chamou de “profetas de desgraça” que só enxergam ruínas. Francisco diz “não” a tudo isso, citando Paulo: “Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza”(2Cor 12,9).

Em segundo lugar, há o risco da dispersão cotidiana que aprisiona no que o papa chamou de “imanentismo”antropológico, que ressucita hoje o pelagianismo – a salvação com as próprias forças – e também o gnosticismo – solucionar os problemas com os próprios raciocínios. A outra autocrítica no documento e em muitas falas do papa é a de “mundanismo espiritual”. Sob estas expressões ele entende diversas coisas: a superficialidade, o isolamento, a falta de cultivo de relações estáveis e profundas e de vínculos pessoais seja com Deus na mística e na contemplação, seja com os outros na sinceridade. Há inúmeras fugas possíveis. A mais paradoxal é a de fugir para dentro de um “falso sagrado”– justamente o mundanismo espiritual. É onde as aparências de pompas litúrgicas e eclesiásticas, de discursos e muitas atividades com formalidade espiritual, na verdade, são a busca de reconhecimento, de autoafirmação, de valorização de si mesmo, ou seja, em termos bíblicos, a busca da glória uns dos outros, uma forma de “narcisismo” espiritual que se serve da vida da Igreja. A isso o papa ajunta o neopelagianismo que Bento XVI tinha mostrado, em muitas ocasiões, como um fato da modernidade em busca de salvação através do esforço próprio da ciência, da tecnologia, do empreendedorismo. Francisco  examina esse fenômeno não somente lá fora na cultura e no modo de vida moderna, mas na vida da Igreja e seus agentes.

Subentendido aqui está o “clericalismo”, ao qual o papa voltou uma porção de vezes em suas falas espontâneas, inclusive dando-lhe o epíteto de “peste”, portanto algo contagioso. Então convém esclarecer em síntese o que é mesmo “clericalismo”. Afinal, uma comunidade eclesial precisa de ministérios, inclusive, é claro, de ministérios ordenados, como o próprio papa. Clericalismo é outra coisa, e pode afetar como peste também a leigos “clericais”, inclusive nos bate-bocas por redes sociais. Clericalismo é crer e portar-se como mediação privilegiada e até única para a salvação, para a pertença à Igreja e para o contato com Deus. “Clero” provém de “escolhido”, “porção escolhida”. Passar de eleito a elite, e de elite sagrada a único poder sacro, absorvendo toda mediação e todo poder religioso, isso é peste histórica na Igreja, com consequências devastadoras: infantilismo da grande maioria, abuso de poder, etc.

Esta parte termina com um convite: vamos buscar a cooperação, a solidariedade, a estima e a alegria de estarmos juntos como Povo de Deus. A sociedade necessita de um testemunho comunitário. Portanto não vamos fazer guerra entre nós, mas comunhão. Considerando as possibilidades de comunicação de nosso tempo, o papa formula uma verdadeira pérola literária para entusiasmar na descoberta e na transmissão da “mística de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode se transformar numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada” (EG 87).

Questão: Para além dessas “doenças” (imanentismo, neopelagianismo, neognosticismo, mundanismo espiritual, clericalismo…) e os remédios eclesiais correspondentes, segundo sua experiência caberia mais algum no diagnóstico e nos remédios aqui traçados?

Observação, a 5 não tem mesmo. Está certo assim.

 

 

 

 

 

 

 

Magistério do papa Francisco: Evangelii Gaudium

Lição 6

A Palavra que evangeliza

Na segunda parte do terceiro capítulo da Evangelii Gaudium, que estamos examinando agora, o papa Francisco nos surpreende com um longo tratamento dado à homilia, a “pregação dentro da Liturgia”. Trata-se essencialmente da evangelização pela “palavra”, que depois ele estende à leitura e à meditação da Palavra, à catequese como aprofundamento, enfim o estudo da Palavra de Deus. É surpreendente a extensão da temática num documento destes, numa exortação apostólica pós-sinodal. Vejamos alguns aspectos.

Em primeiro lugar, este foi um aspecto que o próprio Sínodo sobre a evangelização acentuou. Os bispos todos se dão conta de que temos algum déficit na pregação dentro da liturgia. E, no entanto, se pode comprovar continuamente, desde o Novo Testamento, como até hoje: o povo não acorria a Jesus somente para ser socorrido em suas enfermidades, mas para “escutá-lo”. E ficava cheio de alegria ao escutar suas palavras, admirado e cheio de esperança renovada, o que comprova a eficácia de suas palavras evangelizadoras. Depois, ao logo de todo o Novo Testamento, também os apóstolos juntavam gente que os escutava e tomava decisões de fé depois da palavra proferida. Hoje também fora da Igreja Católica, em muitos grupos religiosos autônomos, em diferentes religiões, a palavra de bons “homilistas” entusiasma, congrega, junta multidões, se espalha pela mídia. O povo continua a buscar uma palavra, o povo quer escutar uma boa palavra.  E para quem veio se habituando a escutar ou ler pela mídia, o próprio papa é um modelo de “homilista”.

Basicamente são dois os aspectos a cuidar para que a homilia, que é um momento privilegiado de evangelização, seja fecunda:

  1. Na sua forma, que seja uma conversa familiar, coloquial, clara e direta, amorosa como a palavra de uma mãe se dirigindo aos seus filhos, que leva em conta as experiências de vida, a existência histórica dos ouvintes, que saiba conectar a vida dos que o escutam à Palavra de Deus escutada previamente, infundindo fervor e inspiração para viver.
  2. No seu conteúdo, que seja bem estruturada e fundamentada na Palavra de Deus proferida na Liturgia. Entre os luteranos, que realizam o culto centralizado na Palavra, se costuma afirmar que “A homilia é a joia do culto”, e sobretudo porque o pastor a prepara com um estudo bíblico pessoal do que vai ler e falar em cada culto. Como nossas missas tem um rico ritual eucarístico, arriscamos acentuar uma estética e um bom aparato ritual, e a homilia passa a ser um detalhe para o qual não percebemos tanta exigência. Ora, a homilia comporta uma adequada catequese bíblica, uma atualização responsável, que não pode absolutamente ser improvisada.

Examinando os passos que o papa sugere para preparar bem uma homilia, nos damos conta de que se trata da “Leitura orante da Palavra”, este método de estudo e meditação, de oração e experiência, que chamamos também “Palavra-Vida”. A Palavra de Deus é maior do que a palavra de quem a comenta, e por isso a fidelidade à verdade, a compreensão atenta, a ajuda da leitura e da reflexão, eventualmente a anotação, mas sempre também a oração e a meditação prévia, tudo isso em particular e em grupos, frutificam em uma sólida homilia.

É claro que as homilias de hoje não podem mais ser as peças literárias de Antônio Vieira, que duravam até três horas em certas circunstâncias. Não são aulas ou conferências. De sete a dez minutos bem preparados são o tempo equilibrado. Mas curtas demais também seriam um desprezo e uma irresponsabilidade.

Porém, se a homilia é um momento solene, litúrgico, de evangelização, pelo qual todo pregador é um intérprete, um “hermeneuta” da Palavra de Deus, há outros momentos em que a Palavra precisa de interpretação aprofundada. É a catequese, outra atividade evangelizadora que não pode faltar na organização da Igreja. A catequese é um ministério à Palavra. Todo catequista, homem ou mulher, jovem ou vovó, é mestre da fé, educador e educadora que toma a nova geração pela mão, introduz nos segredos da vida cristã. Hoje é comum pessoas adultas que não tiveram ocasião de uma catequese minimamente suficiente buscarem formação, cursos noturnos ou de final de semana, ou simplesmente perguntarem por um esclarecimento.  Esses são momentos que não podem ser desperdiçados. Cursos de formação são um “sinal dos tempos” pois não há mais como ser cristão sem conhecimento. Uma comunidade cristã que não cuida da transmissão da fé através de uma catequese organizada, com catequistas em boa formação, não tem futuro. Claro que há dificuldades: a massa enorme de informações contraditórias, os apelos diversionistas, a cultura utilitarista e consumista, tudo isso cria desafios para a catequese. Formar grupos de iniciação, dar rosto e substância a estes grupos, oferecer um testemunho crível, exige uma dose de generosidade e sacrifício que só as gerações futuras poderão reconhecer.

Enfim, o papa lembra que o cultivo da Palavra torna o evangelizador um mestre e um pai que orienta, acompanha, ajuda a crescer na fé e no compromisso cristão. Tal postura enche de sentido a vida do próprio evangelizador, pois é transmitindo aos outros que a gente se alimenta e transmite para si mesmo, como um ouvinte da Palavra, o primeiro, pois “a palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos” (Rm 10,8; Dt 30,14).

Questão: Poderia fazer um elenco de dez palavras chaves (eventualmente mais de uma palavra em cada chave) que ajudam a tornar uma homilia ou uma catequese eficaz?

 

 

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Lição 7

A evangelização abraça o mundo

 

Avançando agora para o quarto capítulo de nosso documento – “A dimensão social da evangelização” – começamos com uma insistente e renovada exortação do papa para que não aconteça uma esquizofrenia em nossa fé cristã: a dimensão comunitária e social não é um acréscimo, é dimensão integrante do evangelho que recebemos e que somos chamados a cuidar. Há uma unidade entre confissão da fé e compromisso social, e isso pode ser contado de alguma forma ao longo da história da Igreja. Nos últimos tempos a dimensão social se desenvolveu num corpo doutrinal, a Doutrina Social da Igreja, que o papa lembra ser parte da responsabilidade de evangelizar. Nela está incluída agora a ecologia: “Amamos este magnífico planeta onde Deus nos colocou, e amamos a humanidade que o habita, com todos os seus dramas e cansaços, com os seus anseios e esperanças, com seus valores e fragilidades. A terra é a nossa casa comum, e todos somos irmãos” (EG 183).

É da tradição da Igreja o cuidado preferencial pelos mais pobres. Mesmo em relação ao outro cuidado, o dos doentes, é sempre entre os mais pobres que vamos encontrar o clamor maior, um clamor que é ao mesmo tempo dos pobres e de Deus – pois em Cristo Deus se identifica com os mais pobres. A Igreja na América Latina desenvolveu uma pastoral e uma teologia que reacenderam esta tradição de maneira clara e incontornável. Mas aqui, num documento pontifício para toda a Igreja, o papa lembra o magistério da Igreja por todo lado, incluindo papas anteriores, a respeito desta centralidade: a dos pobres. Pede honestidade para que não nos enganemos a nós mesmos a respeito dessa relação intrínseca entre o cuidado dos pobres e o anúncio do Reino de Deus. Quando se olha para a sociedade, ainda que políticas seja responsabilidade do Estado, a Igreja se une a diferentes movimentos e forças sociais e transforma a evangelização em “inclusão social dos pobres” (EG 186ss). E quando se olha para dentro da Igreja, desde o Novo Testamento até nossos dias, a pobre com seu clamor, com sua voz e sua dignidade, necessita um “lugar privilegiado no povo de Deus” (EG 197ss.) Este é o sinal e o lugar maior da evangelização.

Mas para uma evangelização eficaz, é necessário ter o olhar levantado para a complexidade da sociedade, da economia, do seu funcionamento, do sentido humano da economia, viciada pelo capitalismo de acúmulo quando a economia justa deve considerar a distribuição e a justiça social. É contundente: “Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado”(EG 204), o que exige não só pensar em crescimento econômico mas programas e políticas sociais de distribuição e criação de oportunidades, promoção integral que supere o mero assistencialismo. Por isso é necessário considerar também a política – que o papa volta a lembrar como uma forma necessária do amor cristão: “A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum”(EG 205). Ele lembra também que o Reino de Deus que anunciamos na evangelização segue o método e os passos de Jesus: os sinais da vinda do Reino eram realizados no corpo dos doentes, no pão dos famintos, no ensinamento, na contestação da injustiça e da falsa religião em favor de uma conversão à justiça. A santidade, enfim, consiste no amor e na justiça mais do que em rituais.

Enfim, o papa lembra a postura evangelizadora básica diante da miséria: a misericórdia. Nesse capítulo encontramos já como programa de evangelização e de pontificado tudo o que o papa iria desenvolver nos próximos anos: uma igreja em saída para ser solidária com os pobres, uma Igreja de misericórdia, abraçando em seu amor evangelizador inclusive a terra, todas as criaturas irmãs.

Questão: Comente esta afirmação do papa Francisco: “Para a Igreja, o opção pelos pobres é mais uma categoria teológica do que cultural, sociológica, política ou filosófica”(EG 198).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Magistério do papa Francisco: Evangelii Gaudium

Lição 8

Paz e Bem: Paz social e Bem comum

 

“Paz e Bem” é saudação de tradição franciscana. Ser pacífico e bondoso, reflexo do Sumo Bem que é Deus, é o que se pode desejar de melhor nesta saudação. Entre quem saúda e quem é saudado se estabelece imediatamente uma relação que abençoa o mundo e o torna melhor. Na exortação do papa Francisco tanto a paz como o bem tem o alcance global da sociedade e da terra: a paz é o maior bem social, e o bem que mais interessa é o que alcança a todos, o “Bem Comum”. A Paz e o Bem são núcleo da evangelização, sinais da vinda do Reino de Deus.

A paz é fruto de um desenvolvimento integral e justo da sociedade, pois não há paz onde reina a injustiça. Por isso não há paz sem a relação de todos à prioridade do Bem Comum. Este é o primeiro dos princípios que organizam a Doutrina Social da Igreja, e que se pode encontrar nas Constituições de inúmeros países. O Bem Comum não é uma contraposição aos bens individuais, nem é a soma dos bens, mas é a dimensão social, pública, comunitária, da existência humana com tudo o que isso exige e comporta, tanto em termos de fins como em meios. O que chamamos de “patrimônio” da cidade, da humanidade – uma escola, uma parada de ônibus, uma grande floresta ou um rio – mas também a cultura, a educação, a saúde pública, as leis que regem uma economia justa e o Direito que garante a justiça social, e inclusive a ciência, os conhecimentos, tudo isso compõe o Bem Comum da sociedade e da humanidade.

Ninguém se realiza como pessoa de forma solitária, fechado no individualismo, tornando a relação com os outros uma relação instrumental, de utilidade ou de rivalidade. Nossa sociedade de mercado e concorrência tende a descuidar o Bem Comum. O papa aponta para um problema bem específico: mesmo em política, que está voltada claramente para o bem público, ou os empresários que tradicionalmente buscavam ser benfeitores da comunidade, pode-se pretender ser participante simplesmente de uma “minoria feliz”, buscando a felicidade em estilo “condomínio fechado”, para família e amigos, apenas lamentando que uma maioria tenha ficado fora, excluída das benesses da tal “minoria feliz”. Esta expressão – “minoria feliz” – é ao mesmo tempo irônica e crítica. É que não se pode ser feliz indiferente ao sofrimento e às lutas dos que vivem no mesmo mundo, ainda que se tente colocar cercas.

O maior bem comum é a paz social. O papa Francisco, que já foi bom professor de filosofia, recorre a um de seus mestres, um padre alemão filho de italianos, Romano Guardini, para lembrar quatro princípios que ajudam no compromisso do desenvolvimento da justa convivência social:

  1. “O tempo é superior ao espaço”, ou seja, nós vivemos e trabalhamos para um tempo mais longo do que aquilo que se vê no presente. E, portanto, somos convidados a nos comprometermos com processos sociais que darão frutos no futuro, ainda que não seja o da nossa vida presente. Compromisso com processos de longa duração dos quais não vamos ver resultados e nem o final exige generosidade e coragem. Hoje, sobretudo para recuperarmos uma ecologia saudável, temos que nos engajar em processos que só darão fruto dentro de 100 a 150 anos… Mas só vale a pena viver por aquilo que vale a pena morrer!
  2. “A unidade prevalece sobre o conflito”: conflitos existem, e estão aí para serem administrados com sabedoria, sem angústia, porque a força da convergência e da unidade são maiores, é o que nos faz humanos. O papa lembra que a unidade entre os humanos supõe a diversidade, e a divergência não deveria ser causa de escândalo, mas um caminho de diálogo e de busca da unidade no respeito às diferenças.
  3. “A realidade é mais importante do que a ideia”: contra o idealismo e o romantismo quando se tornam bolhas de defesa, e contra as ideias fabricadas artificialmente ou fixas a ponto de se tornarem preconceitos que não deixam mais enxergar a realidade, o papa lembra que “a realidade é, a ideia elabora-se”. As ideias são fruto de nosso trabalho, mas a realidade se impõe como uma base maior anterior às ideias. Ser fiel à realidade, honrar a realidade, é saber escutar, experimentar de perto, ser solidário com quem padece a realidade. A partir daí as ideias serão mais justas e poderão socorrer realmente as realidades feridas.
  4. “O todo é superior à parte”: hoje este princípio é da nova física, de forma ainda mais surpreendente, pois nela “o todo é mais do que a soma das partes”. Nossa geração é a primeira na humanidade que vê fotos da terra tomadas desde o espaço. Nelas não se vê um mundo com linhas traçando pedaços colados num todo, o mapa-múndi. Não. O que se vê é o todo, e as nuvens passeando sem respeitar alfândegas. O todo é a nossa casa redonda e azul sem retalhos políticos que causaram guerras e sofrimentos. É no todo que os detalhes ganham seu lugar, sua dimensão justa, sua orientação. O todo ajuda a perceber a dimensão certa das partes sem supervalorizar ou se preocupar demais com o que é menor. É completamente estranho hoje que alguém como presidente de uma nação diga “o meu país em primeiro lugar” (America first!). Embora o esforço criativo deva se concentrar no local, é importante ter um horizonte maior, universal. Por isso também é verdadeira a afirmação de Tolstói, (o escritor russo que redescobriu a literatura sobre São Francisco e do qual surgiram os movimentos pacifistas do século XX): “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Claro, é uma aldeia do mundo, ela está ali porque há montanhas, florestas e oceanos.

A paz social e o bem comum são cultivados no diálogo. São uma forma comum de viver, que se aprende. E o seu principal instrumento é o diálogo, a colaboração. O papa dedica muitas páginas ao diálogo em todas as instâncias para este fim: a paz e o bem.  A fé é importante para a paz, mas se a fé tiver uma falsa imagem de Deus poderá provocar a guerra. Por isso a fé precisa da razão e da ciência. A razão, por sua vez, sem a fé, se torna uma autossuficiência perigosa, e deve dialogar com a fé. As ciências se tornam tecnocracia perigosa sem a ética e a fé. As religiões, as grandes e as ancestrais, com suas experiências e suas convicções, são um potencial espiritual com força atômica: podem construir ou destruir, arrancar e plantar, e só serão positivas no diálogo. Assim internamente ao cristianismo as diferentes igrejas cristãs sem diálogo perdem capacidade de evangelizar para a paz e o bem comum. Para cada um desses níveis de diálogo o papa Francisco faz recomendações específicas. Em tudo importa dialogar como uma postura prévia, uma disposição que se torne uma segunda natureza. Para a paz social e o bem comum. Paz e Bem!

Questão: A paz é fruto da justiça e do diálogo. Como se pode aplicar cada um dos quatro princípios indicados pelo papa Francisco para o diálogo sobre a paz? Expresse em quatro frases.

Magistério do papa Francisco: Evangelii Gaudium

Lição 9

Com o Espírito e com o Povo de Deus

 

O medo, e mais radicalmente a angústia, esse medo envolvente e indefinido, são forças que paralisam e também motores que fazem agir inadequadamente. Mas podem ser superados pela confiança e pelo entusiasmo. O papa Francisco, ao começar o quinto e último capítulo da Evangelii Gaudium, lembra que os discípulos ficaram com medo depois que Jesus os deixou, e se fecharam na casa em que rezavam. Mas na manhã de Pentecostes, tomados pelo fogo e pelo vento, pelo entusiasmo do Espírito, romperam o silêncio, abriram as portas, foram à praça, “saíram”. Não tiveram receio dos mal-entendidos e das punições. Ao contrário, as perseguições e os obstáculos provocavam mais ousadia e inclusive alegria.

Para evangelizar, de fato, é necessário espiritualidade, esta força que enche a alma, ter “entusiasmo” (literalmente, significa “estar cheio de Deus”). Mas ninguém pode, por si mesmo, se dar entusiasmo. Nem comandar que alguém tenha entusiasmo. Ele só pode brotar de uma substância interior ou, antes ainda, de uma relação substancial, que transmite energia. Em última análise, só há espiritualidade como potência de evangelização se formos visitados e habitados pelo Espírito Santo, que vem do Pai Criador e de Jesus. Sem isso, a espiritualidade seria perfumaria de pouca duração. A fonte da espiritualidade é o Espírito. E não está ao alcance de nossa manipulação. Por isso a evangelização começa na oração que pede o Espírito para evangelizar. Pede com a certeza da confiança porque o Espírito é uma promessa de Jesus, e ele não falta à promessa. É na oração, na confiança da promessa, na meditação da Palavra de Deus, nas celebrações sacramentais, que se bebe nas fontes da espiritualidade para evangelizar com eficácia. Ou seja, em síntese: é necessário “evangelizar com Espírito”, como está no título deste capítulo.

O papa lembra alguns pilares da espiritualidade cristã: em primeiro lugar a memória e o amor de Jesus, a narrativa evangélica de seu exemplo e o firme propósito de seguimento dos passos de Jesus “na saúde e na doença, na alegria e na tristeza”. Só o testemunho de um amor verdadeiro é acreditável e evangelizador. Em segundo lugar, a experiência do Espírito Santo, no discernimento da sua presença e dos seus dons e frutos, que agraciam com autoestima positiva. Ele cura feridas, nutre com bons sentimentos, desperta para a generosidade, lança para o campo aberto da missão. Em terceiro lugar, o papa lembra a comunidade, o povo de Deus, como lugar de espiritualidade. Ele diz de forma muito feliz: deixar-se tomar pelo “prazer espiritual de ser povo”!  Nossa memória de Jesus e nossa relação amorosa com ele, assim como nossa experiência do Espírito Santo não se dão separadas como indivíduos isolados, mas acontecem na comunhão com outros, nesta condição de “ser povo”. É verdade que Jesus chamou cada um por seu nome, mas chamou já em comunidade. O Espírito desceu como língua de fogo sobre cada um, mas estando todos juntos em comunidade. Quando vamos em procissão no meio do povo, é então que caminhamos com Jesus e com Espírito. Este é o “prazer espiritual de ser povo”. A imagem da procissão, diferente de uma parada militar ou de um desfile de carnaval ou de uma manifestação política, mostra mais claramente o lado “espiritual” de ser povo peregrino que sai e anda pelo mundo com um olhar no horizonte da esperança – antecipando um raio do Reino de Deus que se levanta.

O papa lembra que às vezes cansamos e precisamos pedir ajuda. Não é simples estar exposto à miséria de quem anda ao nosso lado, cuidar das feridas dos outros, vencer a tentação de buscar refúgio e serenidade no isolamento. Mas o papa insiste: quando aceitamos participar dos dramas humanos, quando aceitamos sofrer a compaixão, então “a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa experiência de ser povo, a experiência de pertencer a um povo” (EG 270). Este é o amor que, diferente do Eros, João chamou de Ágape: amor de coração aberto, em que cabe sempre mais alguém. Assim, “o amor às pessoas é uma força espiritual que favorece o encontro em plenitude com Deus”(EG 272).

De fato, o que define o Espírito Santo é o pronome “com”: segundo o dogma que está no Credo, ele é “com-adorado e com-glorificado” com o Pai e com o Filho. Agostinho lembra que ele é o “com-amado” ao lado do Amado do Pai, que é o Filho. Ele é o que conduz todos e tudo à “Comunhão” – com união, koinonia – do Pai com o Filho. Ele ao mesmo tempo abre para abraçar e enlaça tudo e todos no amor de comunhão. Ele é quem inspira e nutre, realiza e leva à plenitude a “Comunhão dos Santos”. É o Paráclito: o com-solador e com-fortador. Co-nosco na solidão e na fraqueza. É a nossa espiritualidade, Deus em nós, Deus na Comunhão dos Santos. É quem intercede por nós, e em nós dá a capacidade de também sermos intercessores uns pelos outros. Se o Pai é o que está acima bem além de nós, e se o Filho é o que está à nossa frente como nosso mestre e irmão, o Espirito está dentro de nós e faz de muitos “um só” no amor.

Sem o Espírito do ressuscitado não há missão. Mas também sem missão não saberíamos do ressuscitado e o Espírito estaria ausente. A evangelização é o lugar onde reconhecemos a presença de Jesus ressuscitado pela imensa potência do Espirito. A evangelização é, portanto, parte essencial da fé e da experiência cristã de Deus. Quando a criação inteira estiver na plena comunhão divina, então cessará a evangelização, restará só a plenitude da Comunhão, o puro entusiasmo sem angústias.

Questão:

            Com a afirmação de que vale a pena ter o “prazer espiritual de ser povo” de Deus, conte em um parágrafo uma experiência pessoal em que sentiu este “prazer espiritual de ser povo” de Deus.

 

Magistério do papa Francisco: Evangelii Gaudium

Lição 10

Evangelizar uns aos outros

Ninguém evangeliza sozinho. Paulo resume o evangelho para uma comunidade em que tinha se desencadeado uma disputa inglória sobre práticas religiosas, rituais antigos, leis de pureza, etc., com este conselho e verdade fundamental: “Carregai o peso uns dos outros e assim cumprireis a Lei de Cristo!”(Gl 6,2). O papa Francisco, no final da Evangelii Gaudium, acentua um dos aspectos desta “carga mútua” que cumpre o evangelho: a intercessão. Vamos aprofundar quatro aspectos da intercessão inspirados na exortação apostólica.

Primeiro, a intercessão é um ato de confiança e de pedido a quem admiramos e consideramos exemplares no caminho do evangelho, é a súplica aos grandes apóstolos e evangelizadores, às grandes testemunhas, mártires generosos, missionários e criadores de espaços onde o evangelho floresceu e ainda dá frutos: Maria, os Santos. São Francisco tinha consciência e dava graças a Deus pelos santos que houve, que há atualmente, e que ainda haverá na história humana. Há, em nosso meio, ao nosso redor, em lugares e situações surpreendentes, pessoas santas, que santificam outras por sua própria intercessão e por sua atuação generosa. De nossa parte, reconhecer que não somos capazes de grande coisa sozinhos, e, portanto, admirar e confiar, pedir e suplicar, socorrer-se do exemplo e da eficácia da santidade de outros, são gestos de reconhecimento, de justiça e de comunhão no evangelho.

Em segundo lugar, a intercessão tem outro aspecto, a mediação. Normalmente entendemos a intercessão como oração de uns pelos outros, intervenção dos santos por nós. Mas ela se aprofunda na “mediação”. É bem verdade que o evangelho é de Cristo, nosso único mediador e salvador. Ele é o Filho de Deus que conhece a nossa condição humana e une terra e céus. Mas a mediação de Cristo é “inclusiva”, generosa, fecunda, se estendendo a toda criatura, até às árvores. Não se deve, portanto, pensar uma mediação “exclusiva”. Ela é sempre a mesma – de Cristo – em tudo e em todos. Assim, tudo é eventualmente mediação para Deus, até os seres mais simples, como bem viu e amou São Francisco. Desde que o Filho de Deus assumiu a condição humana, “tanto o Santificador como os santificados descendem de um só, razão porque não se envergonha de chamá-los de irmãos”(Hb 2,11). Sermos mediadores do evangelho, mediadores entre nós, com a vocação de “pontes” e de construtores de pontes – “pontífices” – é dignidade não só do papa, mas de toda criatura que abraça o evangelho.

Em terceiro lugar, a intercessão é a experiência da comunhão em Cristo, obra do Espírito Santo, edificação de comunidade eclesial: a “comunhão dos santos”. Nós professamos a Comunhão dos Santos imediatamente após a profissão de fé na Igreja Católica e como abertura da parte final do Credo em que professamos os acontecimentos escatológicos, que nos colocam desde já diante da plenitude de vida eterna: a remissão dos pecados, a ressurreição da carne. Assim, a comunhão entre nós é a experiência que une terra e céus, é a experiência da verdade do evangelho, resumida por João nesta afirmação: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos”(1Jo 3,14). O evangelho é esta boa notícia.

Em quarto lugar, a intercessão – a oração, a mediação, a experiência de comunhão até a plenitude da comunhão dos santos – nos conduz pelos caminhos da esperança. É na esperança que alcançamos desde já os frutos da evangelização. Na imagem de Charles Péguy, a esperança é a menor das três irmãs: a fé é a irmã casada, fiel e discreta, a caridade é a irmã cheia de filhos, generosa e cuidadora, e a esperança é a irmã adolescente que anda no meio – fé, esperança e caridade – de mãos dadas, mas não conduzida pelas duas maiores, e sim à frente, sonhando e puxando as outras para o futuro. Sem a esperança as outras envelhecem e adoecem rapidamente. É com esperança incansável, em meio à estranheza e aos sofrimentos presentes, que a evangelização se alonga com paciência no tempo. A paciência é a forma longa e perseverante da esperança, num processo de evangelização que abençoa e torna o mundo melhor por onde passa, curando feridas e abrindo caminho. Evangelizar é nossa razão de ser, evangelizar é preciso – mais que viver.

Questão:

No final deste primeiro módulo do magistério do papa Francisco, sobre seu programa de pontificado e de evangelização, justifique em um parágrafo porque ele termina lembrando a intercessão, sobretudo de Maria.

 

Prof. Dr. Frei Luiz Carlos Susin

Centro de Estudos São João XXIII – Umuarama – PR

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